
Um pé em solo brasileiro e outro na escada do jatinho, ela olhou para o aeroporto há aproximadamente cinco ou seis metros que ela teria de andar com o seus Valentinos de 15 centímetros, cruzou os braços e os esfregou porque ainda era frio e ligou o Blackberry curve. 10 mensagens de voz, três da melhor amiga em São Paulo, duas da mãe, quatro de outras pessoas que viram o seu desfile e queriam dar os parabéns e uma do namorado.
"Não ir com você para Paris te deixou mal, eu sei, mas eu quero que você saiba que é linda e eu te amo. Estou com saudades e se não responder nos próximos dois minutos vou te buscar no aeroporto." Ela sorriu.
E lá estava ele.
O celular tocou novamente, ela atendeu sem perder o olhar de Cirvot, olhos negros e pequenos oprimidos por um largo sorriso.
"Carol" - Atendeu.
"Amiga, advinha o que eu to segurando?" - Sua voz de gralha preferida.
"Espero que nada de ninguém" - Agora com cabeça baixa, para que o namorado não fizesse leitura labial.
"A Vogue, amiga, a sua vogue! Ta tudo tão lindo, amei sua coleção... Eu olho assim e lembro quando a gente fugiu de casa há doze anos, eu para ser atriz e você estilista! Pelo menos deu certo pra você"
Ah que saudade daquela ladainha, elas tinham conversado antes de embarcar de volta para casa e provavelmente ela tinha acordado na manhã seguinte e visto a revista na banca de volta do trabalho.
"Pode guardar pra mim amiga? Quer dizer, eu mesma vou comprar e hoje a noite que tal uma balada para comemorar?"
E uma outra chamada interrompia enquanto esperava resposta.
O número era desconhecido mas o prefixo ela lembrava bem 54, sua antiga cidadezinha, despediu apressada explicando e atendeu a ligação, agora ela esperava alguém trazer sua bagagem do lado de dentro da sala de desembarque especial.
"Carol"
"Oi Carol, aqui é o Cordari, você não vai se lembrar de mim, estou em casa..."
Nesse instante, seu coração parou e ela engoliu. Lembrava sim, não vagamente, o amou tanto e tão intensamente, e só de ouvir sua voz, mesmo que amadurecida, encontrava-se desarmada.
"Co Cordari de Torneirinha? Você está em Torneirinha?"
"Senhora, aqui estão suas malas" Um homem depositou três das suas mais novas malas Chanel ao lado dos seus pés. "Você gostaria que eu levasse até seu carro ou..."
"Assim está bom" Disse tampando o celular. "Obrigada".
Ela olhou para trás, onde havia uma parede com alguns quadros, pensando no namorado a sua espera, mas ela não se importava tanto agora.
"Aham, estou voltanto para Brejão amanhã, não sei porque quis te ligar, a sua mãe me passou o seu telefone..."
Carol procurou um lugar para sentar, um dos motivos de ir embora de casa era ficar mais perto de Cordari, o seu primeiro amor, mas não deu certo porque ele queria ficar mais longe dela e de todo mundo em Torneirinha e então nunca mais o tinha visto.
"Como vão as coisas?" Ela perguntou lutando contra a súbita falta de voz.
"Comigo elas estão boas, mas com você estão ótimas, você está linda! Estou tão feliz que você tenha realizado seus sonhos"
"Como...?"
"A minha mãe estava mostrando essa revista para as amigas dela, eu queria muito te ver, pra gente acertar as coisas, quero saber tudo sobre você agora, parece que depois daquele dia você se escondeu de todo mundo e eu te procurei..."
"Agora eu estou na revista... E não é a primeira mas, obrigada por ligar..." - Tentou se recompor, já faziam dez minutos que ela estava lá, era melhor aparecer para Cirvot alguma hora.
"Eu vou passar em São Paulo antes de voltar para casa, podemos nos ver de alguma forma?"
Ela apertou a mão em punho e colocou frente ao coração para acalma-o.
"Sim, claro que pode"
Acertou tudo e desligou o celular, devolvendo a bolsa também Chanel, olhou para a bagagem, levantou-se e caminhou para fora da sala.
"Será que alguém pode levar isso pra mim?" Apontou para trás onde estavam.
"Perfeitamente"
Depois encontrou o namorado sentado na cafeteria. Um buquê de camélias rosas posto a mesa. Assim que a viu, deu um salto e foi a sua direção.
"Que demora." A abraçou, sorriu ao sentir seu cheiro que voltava a envolve-lo. "Eu senti sua falta."
"Eu também" Ela mordeu o lábio superior, o que mostrava nervosismo. "Quer dizer, você devia ter ido, você sabe"
Os dois olharam-se mais de perto. Cirvot chacoalhou a cabeça tentando afugentar tudo o que parecesse com uma bronca da namorada. Suspirou e guardou o ar estufando o peito.
"Ana Carolina." Uma pausa demorada. " Você é o tipo de mulher que eu sempre quis ter ao meu lado, você é perfeita para mim".
Por que ela sentia medo daquilo?
Cirvot bateu no bolso em frente ao peito da jaqueta de couro negra. Tirou de dentro uma caixinha turquesa e começou a se ajoelhar.
Durante todo esse tempo, ela só conseguia pensar em Cordari, queria vê-lo, saber como ele estava. Ela sabia que estava muito diferente... Mas tinha certeza de que veria seus olhos gentis e sorriso sincero exatamente iguais à dez anos, quando o viu pela ultima vez.
"Ai m..." Carol pensou. Ela não conseguia xingar nem em pensamento, sempre motivo de piada para as amigas.
" Por favor, se levanta."
" Mas eu estava indo te..."
" Eu sei, e por isso vou cortar por aí. Estive pensando desde que você me disse aquelas coisas antes de eu ir para a França."
" Coisas sem pensar, eu te amo"
Ela queria que ele acreditasse que fosse por isso. E sabia que não precisava terminar com o namorado para ir atrás de uma paixão antiga que pode ser apenas uma conversa sobre os tempos antigos. Mas algo em seus sentimentos por Cordari que a fazia querer sempre esquecer de tudo, abandonar tudo e ama-lo com corpo, alma e todo o tempo que ela pudesse e não pudesse dedicar.
Não existia impossivel para ele.
E só o bastou uma ligação.
" Você veio com o seu carro?" Ela interrompeu o que quer que ele estivesse falando.
Constrangido respondeu que tinha alugado um helicóptero para eles.
Com seu coração de pedra respondeu dizendo que queria um tempo, retirou da bolsa a chave de seu carro, segurou seu braço congelado devido ao estado de choque e disse adeus.
Sem ter nem dois metros de distancia, ela já se sentia vacilar, mas entrou no carro e mais uma vez, deu uma chance ao destino que ela queria.
Porque mesmo sendo diferente das outras, Carol sabia que era mulher.
Não importava seu sucesso se não tivesse o único que ela amou de verdade. E como todas as outras que compartilhavam o gênero feminino, ela nunca sabia o que era certo para ela e faria sempre o errado. Se sua intuição a guiasse pra isso.